quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Poema: A vida segue



 A vida da gente 
Às vezes é assim
Um barco pequeno
E um mar imenso
Que parece não ter fim

A gente rema, rema e rema
De repente percebe que saiu do cais
E quando se observa  
A vista lá do horizonte
E voltar já não consegue mais

Quer sempre avançar
E novas águas navegar
Seguir com a força descoberta
E pra frente sempre remar

Num instalo vem novamente
O emaranhado de águas violentas
Nosso barco se torna frágil
E a fragilidade nos arrebenta

Mais uma vez nos dispomos
O trabalho recomeçar
Voltamos então ao antigo cais
Que tudo pode nos ensinar

Meio sem jeito vamos trilhando
E quando pra trás ousamos olhar
Vemos mais uma vez o pequeno cais
E muita coisa pra conquistar

O melhor é saber
Que o barco não está mais lá
Segue e arrisca a tempestade
E quando precisa, sabe voltar
Tem a certeza que no outro dia
Poderá sempre recomeçar
                         André Santos Silva


Comentários do autor

   A vida caminha em função dos nossos sonhos. E muitas vezes eles emperram e parecem ficar estagnados. Nesse momento, devemos voltar ao cais, analisar as ideias e perceber algumas mudanças essenciais para a continuidade da nossa luta.





sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Poema: Tempo de menino



Tempo de menino é assim:
a gente corre, 
apronta, 
brinca
e rir

Salta a janela,
monta na magrela,
joga bola,
experimenta a espora,
quer andar a cavalo,
toma pancada na testa
e sente a dor do galo

Toma banho de chuva,
veste a bota 
e calça a luva


Com uma arma de pau
brincar de matar o amigo,
esconde no mato
e lá acha um esconderijo

Bate,
apanha,
faz inimigo,
toma surra dos pais
fica de castigo

E no outro dia
tudo resolvido

Da uma fugidinha da escola
corre pro campo
só pra jogar bola
e quando chega o horário 
de vir da escola
acompanha o grupo
o mesmo time da bola
e vem sorrindo
com prosas da hora
mas não se pode pronunciar
futebol, nem machucado e nem bola
e o papo segue
com fatos da escola

À noite só quer ver televisão
inventa que fez o exercício
e simula concentração

Vida de menino é assim
um tempo bom
desses que quando a gente cresce
sabe que desaparece
e ficam só as lembranças
de um tempo bom da infância
                         André Santos Silva


Comentários do autor

   O tempo para quem vive uma infância sadia é inesquecível. E com certeza, muitos são os benefícios que o ser humano pode levar em sua bagagem se esse período for instruído e a criança tiver como liberar sua energia e imaginação. 
   Quando se torna adulto, o homem se lembra com muita saudade desse período que foi determinante para a formação de sua personalidade.




quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Poema: Na calçada de casa



Sentar na porta de casa
E simplesmente um papo bater
Conversar com a vizinhança
E o contato manter

No interior esse costume
É realizado todo dia
Quando os afazeres acabam
É hora da alegria
Sentam-se na porta de casa
Mãe, pai, filho e filha
Avó, avô, vizinho e madrinha

Descasca-se uma cana
Come-se um bela jaca
Divide-se uma rapadura
E se faz churrasco na praça

Aniversário torna-se festa
Com frutas faz-se batida
Tudo sem molecada e bagunça
Vizinho, visitantes, todos viram família

Sentados na calçada
Onde ficam ali por muito tempo
No calor o papo se estende
E todos vivem o momento
De conversa, de companhia
De viver como vizinhos
Que gozam sempre de alegria

Minha cidade do interior
Além de quente tem mais calor
De gente que vive a vida
E que sabe o gosto e o seu sabor
                       André Santos Silva



Comentários do autor


   Sinto saudades do tempo de infância em que se podia sentar do lado de fora de casa, na calçada e sob a luz de uma bela prosa descansar e curtir o que a vida podia proporcionar. Saudade do contato saudável que se tinha com a vizinhança que tudo partilhava, e que a ela também se partilhava: experiências de vida, alegrias, tristezas, belas histórias e um convívio intenso com o verdadeiro espírito da boa vizinhança.
   Apesar das mudanças que nos assolam, em nossa cidade ainda vemos um pouco desses costumes.




segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Crônica: Disse me disse



   O homem nasce, cresce, fica besta e casa. Assim diz a língua popular de um bando de gente que sempre está atenta aos fatos da vida e que atenta o oprimido. 
   O ser nasce e de repente surgem as palavras. É um fala-fala  que se transforma cada vez mais e o povo fala, fala e fala. E dessa forma começa o tão sofrido cotidiano:
   _ Oh, que menino lindo! Mas o cabelo tá grande pra uma criança dessa idade!

   A mãe então leva o filho ao salão e o cabelo corta.
   _ Nossa! Ele de cabelo grande era mais bonitinho. Seu cabelinho enrolado parecia com o cabelo de um anjo (como se alguém já tivesse visto um anjo).
   A mãe franze a testa, dá um sorriso sem graça e sai disfarçadamente.

   O menino cresce. Agora tem onze anos e vive brincando com meninas. E de repente:
   _ Cuidado! Seu filho anda demais com menina. Vai aprender tudo de menina.
   A mãe vai lá e reprime o filho dizendo:
   _ Filhinho, menino brinca é com menino e menina brinca com menina. Entendeu?
   _ Sim, mamãe! _ responde o garoto assustado.
   
   Esse mesmo menino cresce. Agora com dezoito anos e ainda não teve a primeira namoradinha. A vizinha muito observadora  e discreta chama a atenção da mãe do garoto dizendo:
   _ Comadre, o seu filhão ainda não namora? Estranho, não acha? Os meus já estão todos na night há tempos!
   A mãe, preocupada, incentiva o filho a sair e dá dinheiro para ele tomar uma cerveja e conhecer umas garotas.
   Mal o filho começa a sair e os vizinhos do quarteirão o chamam de beberrão e desocupado.

   O rapaz agora tem vinte anos e começa uma paquera no portão da casa de uma garota. E o povo comenta:
   _ Olha, Filomena, o filho da vizinha aí só anda se esfregando com a mocinha da Judite nesse portão da casa. 
   _ Liga não, Madalena. Isso não demora um mês! Esse rapaz vai passar uma por uma do bairro. Os rapazes de hoje não querem compromisso. Você vai ver.

   Agora o rapaz tem vinte e três anos. E três anos de namoro. 

   Ao saírem da igreja, Filomena e Madalena passam pela praça e se dirigem ao casal, ali sentado, em tom de graça:
   _ Tá na hora de noivar. Faz um tempão, hem?
  
   Ao saírem dali, ainda seguindo, elas comentam:
   _ Esses não saem mais da praça. É todo dia da semana. Vai embuchar logo, logo.

   O casal ficou noivo. Agora são quatro anos de namoro e apenas um de noivado. E é claro que não poderia faltar a cobrança.
   _ E o casamento? Vai demorar não, né? Olha que a moça não pode ficar pra titia.
   
   No quinto ano de relacionamento - três de namoro e mais dois de noivado - o casal se casa e decide viver por dois anos sem ter filhos. E não demora...
   _ Tá demorando demais para ter um filho.
   _ É mesmo, tá na hora de dar um netinho pra sua mãe.
   _ Minha filha, não demore não. Se demorar vai ser mãe muito velha.
   
   O casal tem o primeiro filho. E as vizinhas...
   _ Menina, tenha logo outro. É bom que os dois cresçam juntos. Olha lá, não vá demorar, viu? A diferença de idade atrapalha a criação dos filhos. Mas antes tome umas vitaminas, pois está muito magrinha.
   _ Você tá fazendo greve de fome, minha filha, ou tá doente?
   A menina ri meio sem graça.
  
   Dois anos depois a moça teve o segundo filho e antes que esse (Pedrinho) completasse um ano, por descuido engravidou e gerou uma menina. E esse fato não passou desapercebido.

   Três senhoras passavam na frente da casa quando se depararam com a mãe.
   _ Minha filha, você não brinca em serviço não, né? _ fala a primeira senhora.
   _ Vixi Maria! Você já tem isso tudo? _ diz a segunda _ deve dá um trabalhão, hem?
   E a terceira que não fica atrás, logo comenta:
   _ Por que você não opera? Na Secretaria de Ação Social eles conseguem marcar ligadura na cidade vizinha. Acho que a prefeitura tem convênio.
   "Engraçado! Ela acha!"
   A pobre mãe sem graça sai de fininho e nem olha pra trás.
   Enquanto isso, as três senhoras seguem a todo vapor dando continuidade à conversa:
   _ Que menina louca!
   _ É verdade! Hoje tá tão difícil educar um filho. Imaginem três!
   _ E sem falar que ela é nova demais pra tá parindo tanto assim, não é mesmo?
   _ Meu Deus, ela engordou demais. Parece que tá inchada. Também o que deve comer!

   Na primeira esquina, uma das senhoras fica. As outras duas seguem caminho. A prosa continua por um destino longo e a passos lentos.
   _ Comadre Belarmina, não quis dizer nada, mas acho que a comadre Filomena é exagerada.
   _ Também acho. Eu apenas a acompanhei nos comentários para não deixá-la sem graça, comadre Madalena.
   _ E não é que eu fiz exatamente igual a senhora? Igualzinho mesmo.

   Algum tempo depois, Filomena morreu. Sofreu um acidente vascular cerebral. Ao chegar na casa, Belarmina, logo procura sarna pra se coçar e não alisa nos cometários.
   _ Ela fumava demais. Era cigarro de palha, cachimbo e ainda mascava fumo. Mas o ditado já diz, né? Quem não ouve consei, ouve coitado! _ ela falou e logo voltou pra sala.
   
   Ao chegar o padre e ao iniciar a celebração, Belarmina e Madalena estavam mais uma vez juntas. Após a pregação, as mesmas pediram um espaço e sem pestanejarem fizeram um pequeno pronunciamento.
   _ Queridos vizinhos, aqui presentes. Hoje estamos muito tristes! Perdemos uma senhora que era exemplo para qualquer um de nós. Muito justa, discreta e verdadeira. Não conheço isso aqui _ ela levantou a mão e exibiu as unhas juntando um dedo ao outro _ de uma palavra que tenha saído de sua boca para falar mal de alguém _ disse Belarmina com ar de tristeza.
   _ Também desconheço. Nunca vi Filomena falar algo que faltasse com a verdade. Ela era uma pessoa muito boa. Mas Deus chama os bons porque o céu precisa deles para embelezar _ Madalena tomou parte nos comentários.

   O filho de uma das senhoras já conhecendo o disse me disse da mesma, tomou parte na conversa e sem muita demora interrompeu-a dizendo:

   _ Chamo os familiares para que fechem o cachão e, em paz, partamos para o cemitério.
   As duas se calaram e em silêncio acompanharam o cortejo.

   De repente, no caminho, Filomena e Madalena se olharam e num jeitinho de quem nada quer, uma se aproximou da outra e...
                                           André Santos Silva



Comentários do autor


   Dizem que o povo fala e fala mesmo. Se chove, logo reclama, se faz sol, um calor infernal. O fato é que a língua é um instrumento de comunicação e por meio dele o homem interage.
   Então, deixe o povo interagir!



sábado, 11 de janeiro de 2014

Poema: Poema proibido



Hoje quero apenas
Na sutileza da criação
Criar grandes expectativas
E viver a emoção
De uma vida diferente
Sob a luz da razão

Quero me proibir
De sentir tanta tristeza
De não viver a realeza
Do meu pobre coração

Decreto também
Que não haja fome de amor
E proíbo qualquer gesto
De arrogância e furor
Que assole a paz do homem
E do seu interior

Hoje quero apenas
Que o sorriso se manifeste
E que a verdade se transcenda
E que de fato nos alegre

Por isso que proíbo
Cada gesto de injustiça
E que a vida do ser humano
Seja sempre mais bonita

Proíbo também
A falta de saúde
A ausência de formação
E toda sua plenitude
Em favor da razão

Que cada indivíduo viva
E tenha onde se situar
Por isso proíbo os laços omissos
Que nos impendem de sonhar
                       André Santos Silva


Comentários do autor

   Sejamos sempre pessoas abertas à felicidade. Que possamos ao longo de nossa caminhada aqui na terra traçar horizontes que nos levem de fato à verdadeira felicidade.
   Que nos permitamos sempre viver felizes, eliminando do nosso contexto de vida qualquer ação que gere uma reação de infelicidade.
   Viver feliz! Que essa seja a nossa razão pela vida!



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Poema: Minha Bahia


Bahia:
De tantas riquezas
De belas culturas
E grandes belezas
Das praias lindas
Da arte e da capoeira
Do berço verde
Da incrível natureza

"Bahia que não me sai do pensamento"
Bahia do sangue negro de boa gente
Da raça, da batucada
Da religião e do candomblé
Bahia da boa música
Do carnaval e axé

Bahia berço envolvente 
Terra de quem quiser
Da negra e bela mulata
Que requebra com axé
Com um batuque envolvente
E muito samba no pé

Terra aqui amada 
Por um povo de alegria
Bahia, meu pensamento suave
Terra minha todo dia

Ê, Bahia
Como tem forças
Para tanta alegria?
Aqui se faz festa 
E se comemora todo dia
E na veia do povo corre raça
Sem direito a nostalgia

Bahia que é nordeste
É Salvador, é interior
É Maiquinique, 
É cabra da peste
É futebol, é doutor
É trio elétrico dos incríveis: Osmar e Dodô
É Jorge Amado, é Gabriela
É pele, é cravo, é canela

Bahia é gente linda
É terra de esplendor
E o seu povo segue e caminha 
Pelas bênçãos do Senhor
E vive a vida no batente
Aprende com o outro a ser gente
Pela Bahia segue em frente
E com o seu canto rasga a garganta
Porque ser baiano
Além do sangue que corre na veia
Tem que ter o famoso molejo
De um povo que dança e dá beijo
E nunca se chateia
                       André Santos Silva



Comentários do autor


   Maiquinique nasceu no coração da Bahia. Estado de festa e alegria, que é considerado ímpar num Brasil de nostalgia. A Bahia é festa, é gente rica de alegria, que vive sua rotina e não deixa se levar pela euforia.


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Poema: Sinceramente




Sinceramente
Não tenho do que reclamar
Sou feliz
E sempre posso começar
Estou vivo
E vida tenho pra dar

Sinceramente
Não posso nada questionar
Deus me deu tudo
Para feliz estar
Então, como posso querer
Na vida estagnar?

Sinceramente
Preciso aprender a olhar
Enxergar mais além
Daquilo que há
Entender que a vida passa
E que não devo me preocupar
Com o que não se deve
E sempre lutar
Vencer o desafio de cada dia
E nunca me calar
Diante da beleza do suspiro
Da vida que em mim há
                       André Santos Silva



Comentários do autor


   A vida é o maior presente que temos. Saber vivê-la é um fator importante e determinante, o que por sua vez marcará o tipo de situação humana que queremos traçar.
   É importante que cada ser humano, diariamente esteja disposto a começar e recomeçar, nunca perdendo a esperança de que a vida é um dom e precisa ser renovada a cada dia. 
   Viver é o que importa. Que tenhamos vida todos os dias e que ela seja em sua essência uma eterna abundância.